20080522

Porque las flores repartidas por el suelo ni siempre quieren decir que ha llegado la primavera...

20080514

wandering around and unable to find myself

Te miro a través de un objetivo, te puedo mirar a través de un filtro, de una capa. Me miras como si estuviera dentro de un paquete.

Poco a poco los ojos se acercan y nos vamos retirando capas y filtros: los ojos se acercan. Poco a poco dejo de necesitar refugiarme detrás de mí mismo, para poder abrir los ojos y dejar entrarme dentro de los tuyos, dejar que entre tu mirada dentro de la mía, dejarme llevar y encantar. Sonreír y bajar la cara, verte sonreír mientras dudas y preguntas cosas: dudas como dudo yo. Aunque el temblor en el pecho me diga: no dudes más.

20080508

porque também na distância é possível

Y a ti, ¿qué decirte? Pues que nunca había imaginado que pudiese ser posible (aunque lo quisiera) que estuvieras allí conmigo, sonriendo conmigo al ver un tranvía loco por la calle, al ver el sol desaparecer en el océano, dejándonos envueltos en la oscuridad naranja del atardecer. Sonriendo al ver el agua muy azul del mar acercarse y mojarnos los pies. Sonriendo al dar un paso y entrar en un mundo dentro de otro mundo. Y verte saltar encima de una roca y pensar: aquí está, lo de fuera dentro de lo de dentro.


Pots arribar al límit i veure que tot el que veus allà, petit, es la teva pròpia vida. Pots arribar a dalt i trobar-te amb passos diluïts en la multitud, en l'immensitat dels dies. Pots veure't passejant a obscures, sense saber per on anar: i tenir ganes de dir-te: no vagis per allà.

I un calfred per l'esquena. I la veu no surt.

20080326

cinco minutos - al voltant teu

Para quê?
Andar a pé. Por qualquer sítio, pelas ruas cheias, pelas ruas vazias, com o volume no máximo, para não sentir que há vida à volta, para sentir não mais do que a vida dentro, essa que se vai agarrando a amarras soltas, alicerçada sobre areias movediças.
Essa que não sabe se olhar para a esquerda ou para a direita, que não sabe se aparecer ou esconder-se.
Uma loucura, em forma de vinho, e uma não tão (mas tão mais) loucura de seguida, uma queda do colchão, uma volta, um suspiro assustado e um encontro cada vez menos fugaz. E uma inconsciência mais ou menos percebida, uma inconsciência tranquila, com um sorriso no escuro, os braços em volta e o tempo a correr.
E o despertar no mesmo (i)mundo de antes.

depois de dar um passo

O problema é quando começas a ter medo de dar passos, mesmo que digas que, faças o que faças, não será nada mau.
O problema é quando, depois de dar um passo, te apercebes de que havia só uma coisa que não querias, e que é precisamente isso que acontece.

20080325

Nova cara. Para dar o salto para novas coisas, se se proporcionar.

20080118

tinta permanente

Os dedos tocavam distraídos no cabelo. Às vezes tornava-se difícil pensar. Tornava-se difícil sentir. Tudo ficava cinzento de repente, e os dedos apertavam o cabelo sem que desse por isso. Era já o dia seguinte e ainda não tinha encontrado as palavras que tinha perdido por aí, quando veio uma rabanada de vento, naquele dia escuro de chuva, e as levou. As palavras que lhe tinham soprado ao ouvido.

Apoiava a testa nas costas da mão. E olhava para o vazio da mesa. Era difícil sentir. Não sabia já onde estava cada parte do seu corpo. Pesava-lhe a cabeça. E entregou a folha de papel ao vento, para que agarrasse as palavras que ele não soubera proteger.

20071116

ainda nada

Tocaram à porta. Ele tinha-se sentado na poltrona grande da sala e não gostou de ouvir a campainha soar. Levantou-se a custo e olhou à sua volta. Lá fora, alguém esperava, nem sabendo bem se valia a pena tocar de novo ou não, se ele estaria em casa ou não, se havia de olhar para as pessoas a passar na rua ou não. Ele dava passos tranquilos a caminho da porta: Quem é?
Ela subia as escadas devagar, com o peso do saco a puxá-la para baixo. Cada degrau parecia maior do que o anterior e, à medida que sentia a porta do terceiro andar aproximar-se, custava-lhe mais içar o pé para o degrau seguinte. Quando levantou a cara viu um pedaço de metal gasto pendurado, meio solto, na parede ao lado da porta: 3.º. Tinha chegado e nem dera por ter passado pelos outros pisos. Ficou em pé, parada, a olhar para a porta, e o tempo que passou pareceu maior do que o que levou a subir os nove lances de escadas. Olá. A porta já estava aberta e o coração batia-lhe ao ouvido. Olá. Sorriso. Outro em resposta; fugidios, os sorrisos e os olhos a viajar pelos gestos do outro, a avaliar a disposição, a abertura, a temperatura. Trouxe-te as coisas. Tinha dito, e não era nada do que tinha pensado dizer, tinha o discurso feito na cabeça e só lhe saiu Trouxe-te as coisas. Ele disse que sim, ou nem disse bem, mexeu a cabeça, num gesto de aprovação que não queria aprovar nada, a voz estava pronta para dizer um sim seguro, mas ficou presa e só saiu ar. Ela olhou para baixo, para os pés dele, ele olhou para o saco preto que ela agarrava com a mão direita, as pegas enroladas pelo pulso e à volta da mão, os dedos esticados meio soltos meio presos. Estendeu-lhe o saco, mal o levantando do chão, pelo peso. Ele estendeu a mão e agarrou-o. Pousou-o no chão, perto dos seus pés. O saco mal se mexeu; uns dez centímetros, se tanto. Afastava-os, aquele gesto.
Pronto, era isso, disse. E olhou-o. Ele olhou-a e disse, Ok. Ela começou a virar-se para descer as escadas: ele não disse nada, ela não olhou para trás; mais tarde ficaram a pensar no que teria acontecido se tivessem falado, se se tivessem mexido, no que teriam visto se não tivessem virado costas e fechado a concha. Ele puxou o saco para dentro e fechou a porta devagar, ainda a vê-la virar nas escadas. Ela olhou para a porta fechada e continuou a descer.
A entrada pareceu-lhe maior quando saiu. A porta estava aberta e não foi preciso tocar-lhe. Na rua, os carros corriam como dantes, as pessoas desviavam-se umas das outras, aos pares ou sozinhas, a passo rápido. Outras encostavam-se às ombreiras das portas das lojas, à espera de ver quem entrava, à espera que chegasse a hora de voltarem para o que tinham de fazer, à espera que lhes caísse uma ponta de felicidade na conversa que iam mantendo com o amigo ao balcão. Ele arrastou o saco até um canto da sala e aí o deixou. Voltou a sentar-se, a ouvir os autocarros a avançar sofregamente pelo meio do trânsito, apitos frenéticos e pessoas a berrar umas com as outras. Enterrou-se na poltrona outra vez e esperou. Fechou os olhos e voltou a abri-los. Esperou. Ouviu o barulho lá de fora durante um tempo, até que a sua cabeça desistiu e se voltou para outros barulhos: vozes, que ecoavam lá no fundo. Ela não era capaz de deixar de ouvir o barulho tremendo da rua, as vozes agressivas das pessoas, o barulho ensurdecedor dos carros: pegou nos auriculares e pô-los nos ouvidos. O mundo parecia desaparecer sempre que fazia isso. Movia-se cinco centímetros acima do solo. Já não ouvia o barulho da rua, já parecia nem sentir o ar cheio de fumo e de cheiros que a rodeava. Sentia-se imune com a música a entrar pelos ouvidos, a encher-lhe os sentidos. Os próprios olhos viam de maneira diferente. Via a realidade com banda sonora. À entrada do metro estendiam-lhe folhetos a informar do novo serviço de internet, a propor-lhe fazer um tratamento para emagrecer em 3 semanas, com oferta da primeira consulta. Ela recusava com um trejeito da boca, um Não Obrigada afónico. E descia as escadas, quase de olhos fechados, a desviar-se da torrente que subia. Ele levantava-se e dava voltas pela casa. Ia à cozinha e bebia um copo de água, tinha preguiça de iniciar qualquer actividade, estendia-se na cama e levantava-se de seguida, tentava dizer a si mesmo que estava tudo na mesma.

20071113

encadeado

Apanharam-me num encadeado. Terei de transcrever a quinta frase da página 161 do livro que estou a ler. A primeira pergunta que me fiz foi: qual?
No Edipo Rey não tenho página 161. Procurei no Modos de Ver e apareceu-me: «No existía en el apogeo de la pintura a óleo.» Não me convenceu. No ¿Qué es el cine? também não apareceu nada conclusivo. De modo que peguei na leitura que vou (re)fazendo a troços do Cemitério de Pianos e encontrei: «Há pequenos sons que assentam sobre o silêncio.» E fiquei-me com esta. É adequada.

Há pequenos sons que assentam sobre o silêncio.

20071004

sem dizer mais nada

20070925

en qué estrella estará

He creado un ángel verde y gris,
que se pasea de noche, no lo puedo ver.
Está donde la luz que dicen que hay
donde terminan los sueños de la realidad,
donde se escapan los niños,si no quieres más,
donde se ahogan los gritos de mi mitad.

He creado un ángel verde y gris.
A veces le hablo bajito por si está.
Lo busco por la calle al caminar.
A veces le echo de menos, si tú no estás.
A veces tengo que hacer de tripas corazón.
A veces tengo que huir, porque no puedo más.

En qué estrella estará, para cuidar de él.
Me pasaré la vida sin dormir.
En qué estrella estará mi dulce corazón.
Por qué me roba la vida la razón.
Dime quién vendrá a ocupar su lugar.
Por qué mis sueños se rompen de golpe.

Donde terminan los sueños de la realidad.
Donde se ahogan los gritos de mi mitad.

En qué estrella estará, para cuidar de él.
Me pasaré la vida sin dormir.
En qué estrella estará mi dulce corazón.
Por qué me roba la vida la razón.
Dime quién vendrá a ocupar su lugar.
Por qué mis sueños se rompen de golpe.

Quiero irme con él.

Nena Daconte

page step

Each step could be a page, but I'd prefer if each page would become a step. Eventually each step will have many pages, and maybe once in a while there will be steps without pages and pages without steps. And there will be turnarounds, jumps, falls; and there will be diving.
Today one could feel the air getting cooler. Feeling the changes in the weather is like understanding that now things are more definitive. Understanding that going back is now harder than a few weeks ago. I don't know why I'm talking about going back. I didn't consider going back. It was just the feeling change. Setting down in a whole new, very different world.

To Kate, because she asked.

20070921

passo página

Cada passo poderia ser uma página, mas bom seria que cada página se transformasse num passo. Há-de ser que cada passo terá muitas páginas, e talvez de vez em quando haja passos sem páginas e páginas sem passos. E há-de haver voltas, saltos, quedas e mergulhos.
Hoje começou a sentir-se o arrefecimento do ar. Sentir a mudança do tempo é como aperceber-me de que as coisas são já mais definitivas, que voltar atrás se torna mais difícil do que há umas semanas atrás. E nem sei por que é que falo nisto de voltar atrás, se nem sequer me ocorreu fazê-lo; foi antes a sensação de mudança. O assentar num mundo novo muito diferente.

20070920

Unravel

while you are away
my heart comes undone
slowly unravels
in a ball of yarn
the devil collects it
with a grin
our love
in a ball of yarn

he'll never return it

so when you come back
we'll have to make new love

Björk

20070914

Nem sei o que venho aqui fazer hoje, a esta hora, já demasiado tarde para fazer seja o que for, ainda demasiado cedo para que me venha o sono. Sono não, que esse anda por aí, a murmurar-me atrás das orelhas: que me levante daqui e dê dois passos: que me deite. Hoje disse que queria dormir aqui em casa, e talvez houvesse esta mesma razão de aqui querer vir, ao meu p.nt., falar de nada. Falava do sono que vagueia por aí; o que me falta é vontade de ir dormir. Por isso escrevo, que me mantém acordado. Fora eu ler e adormeceria num instante. E não quero, quero ficar acordado, continuar a pensar que não quero pensar, continuar a pensar em coisas que me mantenham ocupado. Continuar a pensar no bom que teria sido ficar pelo Barrio de San Lorenzo esta noite.

Quando te chamam, olhas logo para os olhos e perguntas depois o que foi? Ou fazes um ruído (Hum?) e depois levantas a cabeça, como não ouças uma resposta? E a resposta é um sorriso a dizer que só queria olhar-te nos olhos mais uma vez? Ou uma mão que te puxa e te leva a uns lábios que te prendem? Ou é uma cidade a correr à tua volta, num frenesim que te fascina e te deixa cego?

Hoje apanhei o comboio para o centro, cheguei a horas ao Triangle. Eram quase sete e meia e a cidade parecia explodir de vida. Havia dezenas de pessoas à espera de outras, olhavam para os relógios, levantavam a cabeça à procura uma das outras, roíam as unhas, abanavam as pernas, falavam ao telefone e já se encontravam, davam-se palmadinhas, pregavam-se pequenos sustos, beijavam-se, abraçavam-se e sorriam. Outras gritavam nomes e acenavam com força, e sorriam muito. Eu tinha a música nos ouvidos e via tudo isto com um prazer misturado com a ansiedade de não ter ainda encontrado quem procurava. E lá estava ele, a andar, olhar perdido, tranquilo, à procura, e eu ao lado, na direcção oposta, e gente a passar pelo meio, e eu sem poder chamar, que ele certamente não ouviria (ou não me ouviria eu a mim mesmo, com a banda sonora que levava tão veemente dentro de mim); e já lhe ponho a mão à volta da cintura e sorrimos muito; e ali nos encontramos outra vez, desde a última vez, e volta a correr a cidade à volta, como que parada e a rodopiar por ali. A correr, como que parada... E a rodopiar... E isto?

Ets molt bonic. M'agrades molt.

20070906

beijo

Há coisas que são como o pôr-do-sol, mas, em parte, ao contrário. Talvez seja como o nascer-do-sol, mas eu nunca vi o nascer-do-sol. E não pode ser em tudo como no nascer-do-sol.
Tudo parece muito parado, mas o sol aproxima-se inexoravelmente da terra (parece, não é? então vou pensar que sim, que em dado momento toca na terra e que nela se funde). Mas parece parado. Olho-o, a ver se se mexe, e nada, está parado. Mas basta desviar os olhos por uma fracção de segundos e ele está já mais perto, muito devagarinho, mas sem poder parar, e eu jogo a olhar e deixar de olhar, para sentir o seu movimento, que sente mais o meu corpo dentro que fora. E assim durante uns minutos que parecem intermináveis e, ao mesmo tempo, voláteis. Até que se vê só uma réstia de sol, um último pedaço de fogo, e então sim nota-se o movimento, muito lento, e o coração salta e impacienta-se, treme o corpo, das mãos aos ombros, pelas costas abaixo, salta outra vez o peito e a respiração fica toldada pelo tremor e o pedaço de fogo contorce-se até se perder pela terra dentro e deixar cá fora aquela luz cor-de-rosa, como um sinal.

Sim, mesmo como no pôr-do-sol. Por que não há-de nascer qualquer coisa no pôr-do-sol?

20070831

Rodou o puxador e o trinco fez clic. Puxou a porta para si e olhou para fora. Sentia-se um qualquer movimento, um redemoinhar de gente, mas não se via nada. A corrente de ar aumentava a preguiça de sair do conforto doentio do diletantismo dos últimos tempos. No entanto, ali estava, com o coração aos saltos, com a porta aberta, a mão a apertar o puxador.

20070621

A janela estava aberta e o vento entrava por ela e abanava os cortinados brancos. Era um vento que incomodava a preguiça. Preguiça de sentir seja o que for a mexer-se. Preguiça de fim de praia, em que só apetece estar deitado em cima de lencóis brancos revolvidos e dormir. Sentir o calor aconchegar-se sobre a pele e nem sentir já nada. Só a preguiça do movimento, seja ele de pernas, braços, cabeça, olhos, pensamento.

20070620

A janela dava para o escuro do túnel. Tentava em vão não ver o reflexo do interior no vidro. Só conseguiu fazê-lo quando fechou os olhos e adormeceu. Deixou de ouvir as conversas dos outros, deixou de ouvir o deslizar do metro nos carris, deixou de sentir os solavancos nas curvas. Deixou passar a estação, claro. Acordou com um safanão que lhe deu um senhor simpático, que viu que ela ainda ia ficar lá dentro. Abriu os olhos e custou-lhe. Custou-lhe levantar-se, sair do sono, ver aquela luz, voltar a ouvir pessoas.

As pessoas riam e falavam alto, andavam para cima e para baixo na avenida.

20070602

keen on boys

Already dead
So kill my head
There's a sun in his eyes
It won't go away
I'm already dead
Why is it I can't kill my…

He would never sleep
Said I didn't mind it at all
Made me feel quite cheap
Looking back on it all
Then there was this kiss
He said that he couldn't resist
And was I aware of what I missed?

That night I slept on his couch
With my back turned to the wall
Nothing assumed but you know?
You know…
In the morning we said nothing at all
All I could think of was this
He said that he couldn't resist
And was I aware of what I missed?


The Radio Dept.

20070505

viaje

La luz del sol de la mañana entraba por la rendija de la cortina e iluminaba el cuerpo tendido en la habitación oscurecida. Mientras la luz se acercaba de sus ojos, todo él se iba despidiendo del sueño. Abrió los ojos pero de pronto volvió a cerrarlos. Se dio la vuelta en la cama. Se estiró y se sentó. Sus ojos mal abiertos escudriñaron el día por entre las cortinas mal cerradas.
Se levantó y decidió salir.

Abrió la puerta del portal y la luz fuerte le hirió la vista. Se acercó a su coche y entró. Se sentía cansado. Últimamente, después de que no pudiera verla en la estación, todo parecía cansarlo. Todo era motivo para sentirse más angustiado.
Arrancó.
Se dirigió hacia el campo. Necesitaba paz. Y silencio.
Viajó por caminos desconocidos, anduvo a la deriva por unas horas.
De repente paró el coche y salió. Estaba en el campo de los menires, muy lejos de casa. Se acercó y se sentó apoyado en uno de ellos. Todo estaba en su lugar. El silencio, la paz. Cerró los ojos y voló para otro mundo.

Se despertó con un temblor en sus espaldas. Era un temblor muy suave, continuo. Se levantó espantado y miró la roca. Sin embargo, parecía inmóvil. Una roca como las otras. Se acercó y le tocó. Seguía temblando. Se alejó otra vez. De repente, no creyó en sus ojos. La roca emanaba luz. Una luz lechosa e instable. Tuvo miedo.
El cielo parecía oscurecido. A pesar del miedo, sintió un deseo incontrolable de tocar en la roca, de sentir su luz caliente en sus manos, invadiéndole el cuerpo y la mente. Se acercó despacio. Levantó la mano y tocó en la piedra. No estaba caliente. Pero la luz seguía temblando. No pudo alejarse más. Quiso quedarse pegado a la piedra para siempre. Ella era su luz, su guía en la oscuridad.
Su respiración volvió a la normalidad.
Después, sin comprender cómo ni por qué, el menir se deshizo en cenizas. Vio su luz desaparecer como había visto la luz del tren apagarse despacio, a lo lejos.
El grito preso en su garganta nunca salió.

20070419

Alguém trocou o acúcar pelo sal. E ficam com tão bom aspecto na mesma! A fazer crescer água na boca, na mesma. E depois tem um sabor insuportável. Ou pior ainda, seria como quando dizem aos miúdos que não brinquem com os bibelots, que não mexam nas bonecas russas. E elas ali, com tão ar de brinquedo. Ou darem-lhes carrinhos de colecção aparafusados à caixa: Estes não são para brincar, são de colecção... E o miúdo olha e lixa-se para a colecção, quer é passar a tarde a brincar!

Como quando os comboios são cancelados, à última da hora. E já estava tudo montado na cabeça: os passos, os sítios, o descanso no bar do rés-do-chão, as camisolas brancas a reflectir a luz negra. E os sorrisos.

"O comboio foi suprimido devido a remodelações na via."

E toca, toca, toca, e cai por terra: Está indisponível, ou um qualquer serviço de voice-mail.

A conversa decorre sem sobressaltos, alheia ao que se passa debaixo da mesa, como se debaixo da mesa o mundo fosse outro, como se nada passasse cá para fora. Só um sorriso dá conta de algum tropeço, alguma fuga. E às vezes parece que nem há mundo à volta, que não há mais que a mesa do canto, e olhos, mãos, pés, pernas, bocas, palhinhas, copos. Toques. E sorrisos. Palavras soltas. E uma impaciência, porque há quem ainda não tenha adormecido. E nada pode passar para fora. Como?, se não há tal coisa? E fora e dentro deixam de ser conceitos e passa a haver só o agora. E os arrepios, borbotos na camisola, pormenores nas mãos. O mundo só se agita quando é hora de ficar de pé e partir.

20070322

DIA 2

Hoje já não chove. Pelo menos agora, e espero que não chova pelo resto do dia. Estou de volta ao jardinzinho que descobri ontem. Hoje, a luz filtrada pelas árvores é mais bonita, vêem-se os raios do sol. Já não é tudo cinzentão. A madeira dos bancos ganhou vida. A relva parece respirar de tranquilidade e juventude. Mas o ambiente do dia anterior, o peso da chuva ainda aqui está. O jardim continua vazio. Não há ninguém nem se ouve nada. Nada para além dos carros ao fundo e das ondas a bater furiosas. As ondas parecem estar sempre a tomar as atitudes que não tomam as pessoas. Peguei no caderno para escrever e, na verdade, não me sai nada. Ontem tinha tido uma série de ideias, frases bonitas, até, para aqui pôr; mas agora: nada. Os ramos abanam ligeiramente com o vento, numa dança lenta e íntima. Sou quase um intruso naquele local. Por cima da mesa há umas folhas velhas e uns ramos. Restos de terra e uma camada que parece feita de frio. Sorrio ao escrever isto. É mesmo verdade, se ali puser a mão, a mesa está fria. Muito fria. Aquela camada parece cobrir a madeira e torná-la fria. É quase cinzenta. Podia ser de gelo, se não soubesse eu que não é. E posso até dizer que sim, que é, posso deixar-me aqui sentado a imaginar o gelo em cima da mesa. Posso sair do lugar de olhos fechados e levar comigo este jardim para um qualquer outro sítio, e de repente estou já não ao pé do mar às portas de Lisboa, mas sim dentro deste jardim, em lado nenhum, com o mar ali, ainda assim, mas já sem carros, para que servem ali os carros? Às vezes as coisas podiam ser bonitas e resumir-se ao prazer de voar num banco de jardim, de sentir a água gelada escorregar ao longo do corpo num mergulho. E ficar a ouvir as folhas bater umas nas outras.
Alguém passa. Ouço os passos lentos e olho como se fosse a coisa mais normal do mundo. E até é a coisa mais normal do mundo. Viro a cabeça e olho para a senhora com o seu carrinho de compras. A arrastar levemente os pés, serena. Irá para casa e leva lá dentro o pão para pôr numa cesta de vime, sobre a toalha com umas flores coloridas, uma toalha gasta pelo tempo e pelo uso. E vai lavar o copo que mal usou, deixá-lo em cima da banca para logo à noite. E talvez deitar-se na cama a descansar. Ligar a televisão com a renda em cima e ficar a ver a novela da tarde, para depois vir à janela ver se a roupa já secou, É o diabo, com esta humidade.

DIA 1

O tecto é branco. Há uma lâmpada, mas também ela é branca. E penso, Está na hora. Levanto-me, pego nas chaves e enfio o casaco pelos braços acima. Bato a porta e está a chover. Nem chega a ser chuva; a minha avó diria que borranha. Desisto do carapuço porque não vejo bem com ele. Viro à esquerda, como sempre me lembro de ter feito, subo a rua das casas que todos os dias vejo e para as quais, por isso mesmo, nunca olho. E também não foi hoje que olhei. Não está um vento muito forte. Nem frio, sequer; a chuva cai em cima da cabeça, bate na cara e no pescoço e não me faz impressão. Atravesso a rua movimentada fora da passadeira, apesar de a ter a uns escassos dez metros. Dou quase sempre uma corrida no final, a fugir do carro que não parece ter intenções de parar. Forço-me a olhar para as casinhas que por ali há. Todas diferentes e, ainda assim, tão iguais. Cada uma com o seu tipo de portão, de grade, mas todas muito bem protegidas do mundo exterior. Posso ver os carros dentro de alguns jardins, mais à frente vou ser surpreendido por um cão a ladrar furiosamente. E o coração salta e praguejo que detesto cães. A rua segue para baixo. Instintivamente, porque em frente há um descampado qualquer, que é e continuou a ser desconhecido. Não é este desconhecido que quero hoje. Não é este desconhecido que quero passar a conhecer.
Procuro intimamente um desconhecido bonito, irresistível. No entanto, tenho muito claro que começo o percurso numa terra onde a fealdade impera, onde só algumas pequenas coisas ganham beleza e força, se e porque fora de contexto. As flores pendem por cima das placas metálicas que protegem os jardins dos olhares indiscretos de quem passa. Passam duas amigas a falar, com um ar pesaroso, Coitadinho, ele até era bom rapaz mas, pelo que ouvi, andava metido... e não ouço mais nada. Uma delas tinha a Maria na mão.
Volto a cabeça para trás e sorrio levemente para mim. Continuo a andar e tenho de me desviar para o passeio, que vem lá um carro e nem o ouvi. As árvores densas não protegem da chuva. Antes acumulam água sobre as folhas e, quando o vento é um bocadinho mais forte, a minha molha é mais desconfortável. Lá ao fundo os carros circulam depressa outra vez, apitam, não vêem passadeiras (as que não uso; como os
posso julgar?), andam depressa, muito sérios. Eu volta e meia olho para o telefone, a ver as horas. E não só as horas, olho para ver se o telefonema já chegou, se recebi aquela mensagem, se, por acaso, não o senti vibrar e já ele me tinha tentado ligar e eu não percebera. Não deixa de haver casas, por aqui. Prédios baixinhos, vivendas mal tratadas, outras já melhorzinhas, amarelas, cor-de-rosa, prédios verdes e azuis, castanhos, com varandas horríveis destacadas. Aqui já não há árvores. Há um passeio mais largo, contudo. As entradas dos prédios não me guiam, não me regulam: olho antes para as ruas que se cruzam, para um sinal, para uns semáforos, para saber como e por onde voltar para trás. Mais à frente está a linha do comboio. Pois é, já aqui estou. E pode-se passar? Sigo e mais lá à frente posso passar por um túnel escuro e apertado.
Este não é diferente dos outros, palco de demonstrações de arte urbana, entre outras, local de passagem, e não só para o outro lado da linha, guardador de cheiros da cidade. Do outro lado a rua é estreita e tem só um sentido. Segue a linha do comboio. Há árvores dum lado, e é para esse lado que vou. Há poucos carros. As casas são maiores, aqui. Palacetes. Alguns são escolas. Mas à frente pode-se descer para o centro, aparentemente. Mas sigo em frente para onde há mais casas e, ainda mais à frente, prédios brancos, estes já não tão feios, mas mais juntos, mais fechados. Passeio por aquelas ruas tão residenciais e sinto que invado a casa de alguém. Viro numa esquina e há um jardinzinho. Feiinho, à primeira vista. Mas depois, é por ali que
fico, sento-me num banco, embora nem cansado esteja. É sossegado. E não tenho medo, apesar da aparência de beco. O chão é de terra batida. Ou talvez não. É terra mas não está enlameado, apesar da chuva. Os bancos são de madeira, as árvores servem de filtro, tanto da luz como da água. Parecem pinheiros. Está tudo muito cinzento, como o dia. Ou talvez mesmo por causa do dia. Há uns bancos aqui e ali, uma mesa mais lá adiante, relva nuns canteiros, ladeados por caminhos de terra dura. Cheira bem. Lá ao fundo ouço as ondas. Ah! então a praia é já aqui! Não sabia que havia por aqui um jardim...

20070312

exercício de persurso

Lançaram-me o seguinte exercício:

DIA 1

Observação

Escolhe um ponto geográfico A (conhecido) e começa a caminhar, estabelecendo um percurso que te leve a um ponto B (desconhecido). Esse percurso é feito a pé, tem uma duração indeterminada. Decidido o final do percurso, deves regressar a um espaço familiar e escrever, numa página e num tom descritivo, o que se destacou nessa caminhada, elegendo e descrevendo um ponto Z: um espaço, um objecto, um momento, uma forma ou um movimento que te tenham marcado e influenciado especialmente.

DIA 2

Intensidade

Voltar à zona desconhecida e ir directamente ao ponto eleito, o tal ponto Z. Parar e pairar nesse espaço/ponto e escrever no local destacado sobre a experiência de estar no local, parado, em processo de escuta.

O resultado vem em seguida.

20070225

the worst taste in music

He can't forget you
You're quite a find
In my mind I see how he gets you
To close your eyes
Kiss the skies

You race down the stairs in the morning
A kiss in half promise, half warning

Why would you bother to hang around?
Even for some time, now
There will be others to frown upon
If it turns you on

But he's got the worst taste in music
If I didn't know this I'd lose it

But he's got the worst taste in music
If I didn't know this I'd lose it

The Radio Dept.

20070217

auto-retrato III


(l.)

auto-retrato II

(l.)

auto-retrato I

(l.)

ponto de inflexão

Às vezes parece-me que queria ser como uma estrela cadente. Descer pela atmosfera a uma velocidade louca e começar a pegar fogo. Desaparecer e fazer-me cinzas, espalhar-me sobre a terra.

Também não é caso para tanto...

20070216

"Tou-me a cagar, quero é ser feliz."

ele-que-o-disse-sabe-que-o-disse

20070215

Disparos loucos como palavras secas, setas no peito como palavras suaves. Um som solta-se de longe e aproxima-se para invadir e revolver tudo por dentro. E com isso criar um arrepio pelas costas acima, uma lágrima pela face abaixo, um sorriso pelos olhos dentro e o coração enorme e parado no meio do peito, a respiração suspensa pela falta de espaço.
A conversa decorre, como se nada demais se passasse, e talvez nada a mais tenha acontecido, não mais do que uma simples brisa a empurrar a cortina translúcida, a deixar entrever, ou claramente ver, o que está para além do alcance vulgar das mãos. Tudo parece então mais fácil, depois das grandes vagas vem a calmaria, e há que esperar outras sete para que venha uma grande outra vez.

E fugir, fugir sem rumo, com uma mão cheia de nada e a outra agarrada a outra mão, e ficar horas deitado na relva a olhar para as cores das flores que por ali esvoaçam, a pender no meio das ervas altas.

Os dias são longos e curtos. Ainda agora parecia que faltavam anos para amanhã e, de repente, amanhã é já hoje, e nem demos pelo amanhecer. O que era o longínquo e inconcretizável passa a ser o presente e a vida rotineira, embora esteja tudo na mesma: não mudam conhecimentos ou perspectivas, muda talvez apenas a postura, ligeiramente: costas direitas, olhos em frente, braços abertos e, ainda assim, um sorriso, porque há coisas incontroláveis.

ponto de viragem

No comboio tudo é fugaz, as pessoas, a terra lá fora. No entanto, a mesma música a soar não deixa que fiquem os pensamentos e os desaires para trás. E as voltas na cama são as mesmas, dois segundos antes de adormecer. “Às vezes, mal apagava a vela, os meus olhos fechavam-se tão depressa que nem tinha tempo de pensar: «Adormeço».” Diz logo no início de Em Busca do Tempo Perdido — No Caminho de Swann. Anteontem deitei-me. Mas não ia dormir, ia pensar, ia mais uma vez afundar-me na reviravolta de ideias que se deslocavam à solta dentro de mim. E foi isso que fiz, durante algum tempo, até que a certa altura estava já a entrar no sonho, em que as ideias eram menos claras, perdiam o sentido e a lógica, mas davam-me a certeza de que estava a sonhar. Contudo não me tiravam o mesmo gosto da boca nem aquela sensação lá no fundo do nariz (será um cheiro?). Até que, a certo ponto, pensei, «Adormeço». Levantei-me de rompante. E sorri. É estranho sorrir com este peso no peito. E pode até parecer que ando para aqui a lamentar-me, mas não. Não é hora disso, agora. Agora ando mais num turbilhão de incertezas, não diria que ando angustiado. Diria só que ainda não parei. No dia 14 volto. E penso agora ir logo a correr falar. E depois lembro-me do que é o dia 14. Porque, não sendo nada, é tudo e pode ser tudo. O aliciante é esse mas a queda é maior quando grandes são os aliciantes. Quando muito se espera. E não espero nada, digo a mim mesmo que é impossível, e isso é o que me diz a razão. Mas há sempre um descontrolo lá dentro que não se deixa guiar pela razão e que me diz que tudo pode ser como espera esse tal algo que lá dentro se agita. E há sempre esta luta lá dentro, parecida com a do medo e da felicidade de que há pouco falava. Que me faz já sentir bem e mal, permanente e simultaneamente; bem pelo bom que aí vem, pela ínfima probabilidade e pela grande ilusão de que os olhares se cruzem e se descubram, se fundam e fujam por dois dias para um mundo exterior desconhecido; mal pela força de uma realidade que me diz que nada disto é possível, que há certas coisas que não acontecem e que não é possível acertar o primeiro lançamento. Mesmo assim, não consigo deixar de sorrir ao lembrar-me do sorriso.

Tinha começado por falar de comboios. São como corredores compridos, corredores em movimento, locais de passagem. De dupla passagem, passagem ao longo e dentro deles próprios e passagem ao longo de todo o percurso que desenvolvem. O comboio acaba sempre por ser um lugar de reflexão. Sobretudo estes de longo curso. As pessoas vão falando uma com as outras, mas pouco. Cada um com o seu mais próximo, experimentado breves contactos com alguém desconhecido, um pouco desconfortáveis, ainda mais pela posição monótona, pela imobilidade das pernas. Mas parece que me cria, esta imobilidade nas pernas, uma actividade desenfreada da mente, numa torrente de ideais e pensamentos sem elo e sem sentido. Quase como fragmentos. Hoje é um dia diferente, estou a escrever. E agora deu-me para a reflexão sobre a reflexão, coisa que me costuma irritar. Mas hoje não, hoje pareço parvo, já não sei que fazer à torrente cá dentro, há uma vontade louca de deitar coisas para o papel, para onde for. Mas sem nunca dizer a sério o que é, sem poder dizer, sem sequer saber se o quero. Mas, sobretudo, sem poder. Vai ser assim sempre tudo tão difícil? Já sabia, não é novidade nenhuma...

20070208

Sorrisos escondidos

Como num intante o mundo dá voltas para deixar de fazer sombra sobre as ruas estreitas de há uns tempos. E como tudo faz, de súbito, sentido. Num instante, o que antes eram meros fragmentos incompreensíveis e sem significado (quanto mais força), passam a ter explicação, tão lógica, tão visível e, ainda assim, desviante. Como uma força avassaladora, dão voltas à minha barriga. E a todo o mundo à volta. E custa tanto ontrolar tantas coisas ao mesmo tempo. E, quando tudo parecia estar a assentar, vem outra vez a onda e leva os restos de castelos mal construídos. Sempre tão mal construídos, sem alicerces, sem compreender a raiz de tudo, sem acreditar plenamente nela.

E notar a naturalidade, e o alívio que traz tudo aquilo, toda aquela tarde; sentir uma felicidade incontrolável e um medo que com ela luta e não ganha nem perde. Mas que se vai opondo, como que para lhe dar uma força maior.

E agora? E agora?! E agora?!

Ainda se sorri, mais levemente, mas ali por perto andam outros chamarizes, informações em catadupa, e a necessidade da maior delicadeza do mundo, no momento em que tudo anda a velocidades irrefreáveis, em que os dias se sucedem sem intervalos entre eles, em que o próximo comboio a apanhar é já amanhã, é logo à tarde, é daqui a cinco minutos, já o perdeste!

E já nem sei onde vou... parece que desaprendi de escrever, já não sei encontrar as palavras que quero, já não sei construir uma frase. E há imeno tempo que aqui não vinha, e não sei o que fazer. E, e, e...

E a minha cabeça volta atrás, num impulso louco, sem travões e com o ar a bater na cara, e num instante estou lá de novo e ouço. E sim, foi claro a partir de certo momento. A música parou e o sorriso que se seguiu, vejo agora, foi das melhores coisas, meio enervado mas tão espontâneo. Bonito, bonito era a palavra e parece que tenho medo de a dizer... E o coração subiu até cá acima e as palavras ficaram presas no nó que se formou. E saíram outras, não as que deviam, mas foram ditas com tanta natralidade. Claro que sim, claro que sim! Como não? Contudo, ainda tanto por dizer... E cabe em duas ou três palavras.

Talvez pela primeira vez me sinta impaciente por dizer coisas difíceis. E difíceis não pelo acto em si, mas pelo que depois vem. Ou ainda mais pelo que depois não virá. O nada depois do quase nada.

Entrou pela porta de trás. Não disse nada, sorriu só e atirou as coisas para cima de uma das mesas postas em fila. Sempre em passo acelerado, O que é que se faz?, Bom dia. E mãos, sorrisos, dois beijinhos, Tudo bem?, E tu?, Não havia lugar, já estou muito atrasado?, Já passou, és depois. Sorriso.
Correu bem, correu bem, és quando? e quando é que combinamos aquilo? Os dias chegam sempre, já dizia Blimunda: e às vezes, mais depressa do que se achava, já tudo está a acontecer sem sequer ter sido dado tempo de preparação. E podia ter sido uns dias mais tarde, mas as coisas vêm sempre quando têm de vir.

20061218

1

Hoje não vou escrever muito.

O p.nt. faz um ano. Apesar de não ter sido muito regular, aqui está o resultado de um ano. Não chegam a 8 posts por mês, mas é o resultado de um ano cheio de altos e baixos, cheio de turbulência e de mudanças. Nesta altura, há um ano, estava eu (e tudo à minha volta) muito diferente.
Mas como agora é agora, deixo aqui esta nota. E mudo ligeiramente a cara ao p.nt., que já precisava.

20061209

A correr, as portas abrem-se e fecham-se. Não têm noção de ritmo, mas isso não lhes importa nem interfere na sua acção. Abrem-se e fecham-se, como se um vento indizível e inconstante as atravessasse, como se as entradas e saídas deixassem de ser isso mesmo e passassem a ser simplesmente lugares de ruído e de luz e sombra, luz e sombra, luz, sombra, luz, sombra, pum, pum, clunk, pum, pum, clunk, pum, clunk clunk, clunk, pum pum. Como se o que me é dado a ver não passasse de fragmentos, pequenos fragmentos que não deixam construir a forma daquilo que, afinal, não conhecia assim tão bem como pensava. Como se o que me fosse dado do mundo não fosse mais que parte dele, um bocadinho dele, um conhecimento mais ou menos dele. Mais ou menos. Às vezes uso isto com um sentido, às vezes com outro. De facto, é pena não ser eu a ler alto aquilo que me corre na cabeça, é pena a cabeça não ter a capacidade de ser como um papel. E agora volto atrás, como num filme em rewind, tzzzzzzzzzzzz-zzzzzzzzzzzz-zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz-zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz, para trás. Porque já me afastei, já me deixei levar para outros campos que não queria. E volto às portas. Ainda batem, e cada vez mais me parecem completamente indiferentes a tudo o que se passa à sua volta. E nem por isso me parece que tenham elas uma razão para bater. Abrir, fechar, abrir, fechar, abrir, fechar. Muitas, como é que há tantas portas no mesmo sítio? Que loucura! Ainda tentava acompanhar cada porta, ver cada uma delas a bater, mas a certa altura torna-se impossível e sento-me (sento-me!) a olhar para uma de cada vez. E desta vez tento perscrutar o que há dentro dessas portas, tentar juntar fragmentos de momentos e juntar peças e montar pedaços para formar um outro pedaço. Pedaços do pedaço. Agora estrago isto tudo e dou uma gargalhada! Pedaços... Pedaços, iogurte de pedaços! E os líquidos? Líquidos com pedaços? Não gosto de iogurtes com pedaços...
Um iogurte de pedaços não encaixa no cenário das portas. Até porque, no cenário das portas, é tudo uma mistura de cinzento, sépia e azul... Não há lugar para o rosado forte dos iogurtes de pedaços. Ficava demasiado anúncio. Demasiado anúncio...
E entretanto, o que me parece é que estou numa auto-estrada com carros sempre a passar (sem o barulho das auto-estradas, antes o pum-pum das portas), muitos carros sempre a passar, à noite, com luzes fortes. Muito depressa, claro, escuro, claro, escuro, claro escuro, luz, sombra, luz, sombra, luz, sombra, claro, luz, sombra, escuro, claro, sombra, luz, escuro, escuro, somb ra, claro, luz, claro, escuro, luz, sombra.
Há portas pelas quais nunca ninguém entra. E pelas quais tão pouco se sai.
É só uma sucessão de imagens, que nãoi formam nada na cabeça de ninguém, que não deixam uma imagem instantânea inteligível. Que não chegam para criar nada de nada. Ali. Só depois se recolhe pedaços de pedaços e só depois se vê o todo com o fragmentom de pedaços; e só então se diz, Ah! Agora vejo! Vejo! Vejo! Vejo!

NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO!

Chega! Há limites, caramba! Nem tudo são números! Nem tudo o que se aguenta em pé é bom por isso mesmo! Nem só os louváveis são necessários!
E, um pouco derreado, nenhuma das duas partes pode funcionar sem outra... Apesar de os deixarem... E de ser muito bem visto... Os números... Para que servem essas coisas que se fazem com umas coisas estranhas? Uns lápis, umas canetas (que picuinhas que eles são, têm de ser da Rotring, veja-se lá!). Para que serve pensar nessas coisas? Para que serve ser-se um bocadinho humano? Para que serve andar por aí a descobrir a pólvora? Não é mais fácil pegar no computador e enfiar para lá uns dados e pronto, temos a resposta?!
Mesmo que seja precisamente o cego a criticar a falta de vista... Ou o oco a criticar a vacuidade.

20061118

E, como um impulso, sentiu chegar o momento e saltou. Olhou à volta e tudo se mexia a uma velocidade louca. Nem sequer conseguiu perceber uma série de coisas, mas também decidiu não se importar com isso. Rodou no ar até voltar a acordar, em cima, ou dentro, ou atrás, ou mesmo debaixo do branco escuro de sabe-se lá que quarto, que sala, que... seja lá o que for. E branco... Sempre branco. Branco pureza, branco simplicidade. Branco irritante. Branco insuportável, branco de enlouquecer, branco enfadonho, branco cheio, branco demasiado pesado. Porquê branco? Para quê sempre branco. Até dá vontade de lhe tirar partes dele que não vejo, mas que se fazem sentir, pelo peso; tirar-lhas, a ver se ganha vida, se deixa de parecer puro e limpo, e tão perfeito, sereno e impecável. Lançar-lhe água para cima! Apagá-lo. Riscá-lo com lápis de cera. Riscos compridos, intermináveis, exasperantes, gritantes.

Para acalmar. Mergulhar.

20061027

cores bonitas

Há dias em que chego e está tudo calmo. Parado, nada gira, nada brilha, tudo se mantém palidamente cinzento. Ao fim da tarde as coisas ainda estão difusas; vão-se tornando claras à medida dos passos que vou dando, a subir para casa. Às vezes preciso de ver que as coisas não se tornaram claras, antes escuras. E que o entardecer - que há tão pouco tempo parecia prometedor, o céu bonito, como já não se via há tanto tempo, sem nuvens, as cores a chamar, a prometer outras cores, mais tardias, a deixar para trás a semana, a voar um bocadinho, a ficar leve, poder girar e rir, sentir o peito abrir e respirar - acaba sempre por se trasformar em noite. O ar já estava fresco, mas quando se está como estava eu nessa altura, o frio é um pequeno obstáculo.
Ao chegar e entrar, já a noite parecia gélida e escura, as cores tinham-se fundido em tom de papel velho, a mão esticada tinha sido recolhida, a voz tinha falhado, a vontade tinha sido adiada, o telefone caído, indiferente, no colchão. E ressaltado.

E já antes tinha sentido a necessidade de agora, a passar na estação, a ouvir os gritos de quem me vende uma camisola por cinco euros, um chapéu de chuva por sete e fruta fresca por dois euros por quilo. A cabeça a dar uma roda, sentir o ponto de saturação chegar, dar um grito à procura de um silêncio que parece só existir quando a música me invade e se sobrepõe a todo o ruído em volta, me transporta para outro mundo, me faz andar um pouco acima do chão e me deixa alhear-me e poder pensar um pouco mais lucidamente. Ou não tão lucidamente; deixa-me pensar, tão só, mesmo que seja esse pensamento o de um vôo, uma viagem ao emaranhado de linhas que se vêem do outro lado da linha, mais próximas do horizonte com cores bonitas.

20061026

Poema 20

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".

El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.

Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.


Pablo Neruda, Poema 20;

inVeinte poemas de amor y una canción desesperada

20061009


Com a outra mão... Sem ver nada.

Que tal tentar pegar e tentar fazer chegar aqui a este nosso pequeno cantinho?

...

(talvez daqui a uns dias seja mais concreto)

20060927




"Get through this night, there are no second chances. This time I might. To ask the sea for answers."
Placebo

Because I can't find the words myself.

200